O mercado de apostas esportivas no Brasil vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que o setor movimenta bilhões em publicidade, o Legislativo avança com projetos que podem proibir completamente a veiculação de anúncios de bets em qualquer meio de comunicação.
O que está acontecendo
A Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado Federal aprovou, em fevereiro de 2026, o Projeto de Lei 3.563/2024, que proíbe todas as modalidades de publicidade, patrocínios e promoções de apostas esportivas e jogos de azar online. O projeto segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ir ao plenário do Senado e, em seguida, à Câmara dos Deputados.
Paralelamente, o PL 2.985/2023, já aprovado pelo Plenário do Senado em maio de 2025, tramita na Câmara e propõe restrições mais cirúrgicas: janelas de horário para publicidade na TV (19h30 às 24h), no rádio (9h–11h e 17h–19h30) e veto à participação de artistas, atletas, influenciadores e comunicadores em qualquer campanha publicitária de bets.
No âmbito do governo, o Ministro da Saúde Alexandre Padilha defendeu publicamente medidas mais restritivas — comparando a necessidade de regular a publicidade de bets ao que foi feito com o cigarro.
O impacto para o mercado publicitário
As bets se tornaram um dos maiores anunciantes do Brasil nos últimos três anos, com presença maciça em futebol, TV aberta, rádio, redes sociais e marketing de influência. Uma proibição total representaria a retirada de um volume expressivo de verba do mercado — especialmente em veículos esportivos, podcasts e criadores de conteúdo que dependem desse segmento.
Antecipando o cenário regulatório, o IAB Brasil lançou um guia consolidando regras e boas práticas para campanhas digitais do setor, orientando agências e anunciantes sobre conformidade com as diretrizes da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) e do Conar. Ao mesmo tempo, diversas casas de apostas já começaram a reformular o tom das suas campanhas, incorporando mensagens de jogo responsável como estratégia de antecipação regulatória.
Por que isso importa
O desfecho desta regulação definirá um novo mapa de investimento publicitário no Brasil. Se o veto total for aprovado, agências e veículos precisarão recompor receitas que, em alguns casos, chegam a representar entre 20% e 30% do faturamento. Para as marcas de bets, o desafio será construir relacionamento com o consumidor sem a mídia paga — forçando uma virada para branding de longo prazo, CRM e estratégias de retenção. O mercado tem até o desfecho legislativo para se preparar. E o relógio está correndo.



