O salário nas agências de publicidade no Brasil chegou a R$ 4.318 em média para cargos não executivos, segundo levantamento do Sistema Nacional das Agências de Propaganda, formado pela Fenapro, 19 Sinapros e três delegacias. A pesquisa, realizada no último trimestre de 2025 com suporte da consultoria Celerh, reuniu dados de 91 empresas distribuídas por 23 estados, mapeando mais de 200 funções e práticas de gestão de pessoas.

Salário nas agências de publicidade: o que o número revela

O salário médio de R$ 4.318 reflete um setor majoritariamente composto por pequenas e médias operações: 65% das agências pesquisadas têm até 30 colaboradores, 25% operam com equipes de 31 a 99 pessoas e apenas 10% ultrapassam 100 funcionários. O recorte evidencia que a média salarial é puxada por mercados regionais, não pelas grandes operações dos principais centros urbanos.

“Essa média salarial de R$ 4.318 mostra uma realidade dos municípios e estados brasileiros. Quando você olha o perfil das agências que responderam, percebe que o estudo traduz majoritariamente mercados regionais, com pequenas e médias agências”, afirma Ana Celina Bueno, presidente da Fenapro e primeira mulher a ocupar o cargo. Segundo ela, a relevância do estudo está em democratizar o acesso a dados estruturados para quem historicamente não teria capital para contratar pesquisas próprias.

Para contextualizar, o investimento publicitário global atingiu US$ 1 trilhão em 2026 pela primeira vez, com o Brasil entre os líderes de crescimento — confira a análise completa em Investimento publicitário global 2026. Esse cenário de expansão torna ainda mais relevante entender como as agências brasileiras remuneram e retêm seus talentos.

Trabalho híbrido e benefícios: o salário nas agências vai além do salário

A pesquisa mostra que o salário nas agências de publicidade é apenas parte da equação. Os benefícios representam entre 30% e 40% do custo total com colaboradores. Entre as práticas mais comuns estão day off no aniversário (61%), incentivo à educação (40%) e plano de academia (30%), além de ações voltadas à saúde mental e licença-maternidade estendida.

Quanto ao modelo de trabalho, 78% das agências operam em regime híbrido ou remoto e 70% adotam horário flexível. A adoção massiva do trabalho à distância criou um efeito colateral importante: a concorrência por talentos agora transcende a geografia. Uma agência do interior do Paraná compete pelo mesmo profissional que uma multinacional de São Paulo. “O fato de trabalhar em home office ou híbrido oportuniza que as pessoas trabalhem para qualquer mercado. Se eu não me submeter, em alguns cargos estratégicos, a pagar o salário que os grandes mercados pagam, eu não vou reter ninguém”, alerta Ana Celina.

Turnover, gênero e maturidade de gestão nas agências de publicidade em 2026

Apesar do ambiente competitivo, o turnover nas agências é de 3,76%, abaixo da média do mercado geral, com tempo médio de permanência de quatro anos por colaborador. Os dados sugerem que, mesmo sem os maiores salários, as agências constroem vínculos duráveis — provavelmente pela combinação de cultura, flexibilidade e propósito.

Outro dado de destaque é a composição de gênero: mulheres representam 59% dos colaboradores das agências pesquisadas, e 40,6% ocupam cargos de liderança. “A publicidade foi sempre dominada por homens, principalmente na área de criação. A gente está vendo esse quadro virar”, diz Ana Celina, que ela mesma é símbolo dessa transformação.

Na gestão de pessoas, 59% das agências contam com avaliação de desempenho e programa de desenvolvimento individual, enquanto 48% possuem plano de cargos e salários. O avanço do people analytics — conectar métricas individuais a resultados de negócio — também começa a aparecer nas agências líderes. “A gente não via, historicamente, política de desenvolvimento das pessoas em agência. Então, isso eu achei muito positivo”, avalia a presidente da Fenapro.

Análise Adtrend

O salário nas agências de publicidade de R$ 4.318 é um número que conta uma história maior: a de um mercado em transição estrutural. O baixo turnover (3,76%) e os quatro anos de permanência média mostram que a retenção não depende só de remuneração — depende de cultura, propósito e flexibilidade. O ponto crítico está no trabalho híbrido: ao romper barreiras geográficas, as agências regionais passaram a disputar talentos estratégicos com grandes centros, o que pressiona os salários para cima nessas posições. Quem não se preparar para essa dinâmica vai perder os melhores profissionais para concorrentes que operam remotamente. A pesquisa da Fenapro cumpre um papel importante ao dar visibilidade a essa realidade — e ao mercado cabe usar esses dados para tomar decisões melhores de gestão e remuneração.

Fonte: Propmark